Sobre debates e liliputianos
Debates eleitorais pela TV costumam ser extremamente tediosos, um mero entrechocar de imagens forjadas por marqueteiros como o Duda Mendonça, cujos cordéis movimentam os fantoches em cena.
São exceções irrisórias as situações pitorescas nesses debates. Eis algumas:
1) quando Richard Nixon, ainda sem aquilatar a importância da imagem, foi ao confronto decisivo contra John Kennedy com a barba por fazer. Mais do que os argumentos, o eleitorado dos EUA comparou o garboso Kennedy ao mal-encarado Nixon, com os resultados conhecidos;
2) quando um deputado dos mais obesos queria entregar alguns papéis a Jânio Quadros no ar e foi se arrastando grotescamente por baixo do ângulo captado pelas câmeras... sem imaginar que, maldosamente, elas o focalizariam, expondo a todos os telespectadores seu puxa-saquismo explícito;
3) quando Franco Montoro esperou sua tréplica a Jânio Quadros, no encerramento do debate, para acusá-lo de torpeza (havia sido vítima da ditadura e estava mancomunado com os antigos perseguidores), de forma que suas tentativas raivosas de dar resposta foram rechaçadas pelo mediador, fazendo-o parecer destrambelhado e patético;
4) quando Boris Casoy perguntou a Fernando Henrique Cardoso se ele acreditava em Deus e FHC se queixou de que haviam combinado não tocar nesse assunto, dando ao adversário Jânio Quadros um trunfo talvez decisivo para vencer uma eleição parelha;
5) quando Brizola e Maluf perderam as estribeiras e ficaram se xingando no ar. "Filhote da ditadura!", repetiu várias vezes o gaúcho, enquanto o outro respondia: "Desequilibrado! Desequilibrado! Passou 20 anos exilado e não aprendeu nada!";
6) quando Lula teve um apagão no debate decisivo com Collor e reagiu com apatia aos ataques do inimigo, não contestando sequer a afirmação de que seu aparelho de som era melhor do que o do ricaço das Alagoas;
7) quando o mesmo Collor, tentando voltar à tona depois de botinado do poder, foi escalado para formular uma questão ao estapafúrdio Enéas e, depois de pensar um pouco, desistiu: "Manda ele falar o que quiser". Enéas gastou seu tempo criticando o próprio Collor, que esnobou de novo o adversário ao ter a chance da réplica: "Manda ele continuar falando".
Lembrei-me de sete momentos interessantes num sem-número de debates a que assisti ou dos quais tomei conhecimento. Posso ter esquecido um ou outro mais. O certo é que a mesmice e a chatice predominam de forma avassaladora.
Então, não serei eu a lamentar o cancelamento do debate que a Rede Globo promoveria entre os candidatos à Prefeitura de São Paulo. O que ele acrescentaria aos já levados ao ar pela Bandeirantes e Record? Talvez a Soninha dessa vez chegasse de patins, em vez de bicicleta...
A emissora queria restringir o debate aos cinco candidatos melhor colocados nas pesquisas de intenção de voto e três dos que ficariam de fora se recusaram a abrir mão do seu direito de participar.
Só não aceito o destempero da troupe de Geraldo Alckmin (PSDB), que acusou Ciro Moura (PTC) de haver liderado a recusa por ser linha auxiliar de Gilberto Kassab (DEM).
Tal versão implicitamente coloca o digno Ivan Valente (PSOL) na condição de vaquinha de presépio de um coadjuvante ínfimo. Só quem desconhece a extrema coerência que sempre pautou as atitudes de Ivan pode sugerir um disparate desses.
Ele é o único Gulliver dessa eleição: defende princípios, não interesses. Os liliputianos deveriam, no mínimo, tratá-lo com o respeito devido a quem foi valente quando era preciso ser, na luta pela redemocratização do País.
Não serei eu a lamentar o cancelamento do debate que a Rede Globo promoveria entre os candidatos à Prefeitura de São Paulo. O que ele acrescentaria aos já levados ao ar pela Bandeirantes e Record? Talvez a Soninha dessa vez chegasse de patins, em vez de bicicleta...

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