Skip to main content

Jornal de Debates logo Jornal de Debates
  • Como funciona?
  • História
  • Outros debates
  • Cadastro
  • Contato
Início
  • Como funciona?
  • História
  • Outros debates
  • Cadastro
  • Contato
  • Criar nova conta
  • Solicitar uma nova senha

O MITO AQUI E AGORA

Enviado por fabio.ribeiro2 (não verificado(a)) em 28. agosto 2008 - 13:31
Resposta ao debate: 
Qual o potencial da internet como plataforma de campanha?
Resposta ao artigo (opcional): 
Ricardo Kotsho: "Internet multiplica formador de opinião"

"Ineptire est juris gentium" – a inépcia é um direito de todos. (Arthur Schopenhauer)

Em sua obra Mito e realidade, Perspectiva, 2004, Mircea Eliade afirma que a historiografia desempenha para o homem moderno o mesmo que a mitologia desempenhou para o primitivo. Nas palavras do autor:

Durante milênios, o homem trabalhou ritualmente e pensou miticamente nas analogias entre o macrocosmo e o microcosmo. Era uma das possibilidades de se "abrir" para o Mundo e de participar da sacralidade do Cosmo. Desde a Renascença, quando se provou que o Universo era infinito, essa dimensão cósmica que o homem acrescentava ritualmente à sua existência nos é negada. Seria normal que o homem moderno, caído sob o domínio do Tempo e obsedado por sua própria historicidade, procurasse "abrir-se" para o Mundo, adquirindo uma nova dimensão das profundezas temporais. Inconscientemente, ele se defende da pressão da História contemporânea através de uma anamnesis historiográfrica...

O poder de sedução da internet parece estar ligado às possibilidades ilimitadas que ela cria para o cidadão comum interferir no mundo sem sair de sua própria casa. A partir de seu computador pessoal, o internauta pode fundar um partido, iniciar uma campanha contra ou a favor de uma decisão política ou judicial, manter um blog, comentar uma matéria jornalística, reclamar diretamente aos órgãos públicos municipais, estaduais e federais em razão de suas ações ou omissões, apropriar-se de informações privilegiadas ou divulgá-las para prejudicar um desafeto ou beneficiar uma causa que defende. Os mais ousados estão em condições de elaborar projetos de lei e enviá-los à Assembléia Legislativa ou à Câmara dos Deputados e iniciar campanhas de mensagens a deputados apoiando suas propostas.

Ninguém duvida de que a internet já mudou completamente as relações entre os cidadãos, entre estes e o Estado e principalmente entre os ocupantes de cargos públicos eletivos e os cidadãos que dizem representar.

Anacrônico

Apesar de seus benefícios, a internet tem causado desconforto numa categoria de pessoas: os especialistas. Desde o século 19, o Ocidente atribuiu um valor excessivo aos especialistas. Faculdades foram criadas para formá-los, leis foram aprovadas para regulamentar suas profissões e, principalmente, proibir seu exercício por leigos. OABs, conselhos federais e toda uma gama de instituições públicas ou quase públicas foram criadas para defender e proteger os especialistas.

Dentre todos os especialistas os que mais sofreram o impacto da internet foram os jornalistas. Não são poucas as vozes que vociferam contra a proliferação de blogs, denunciam o mau jornalismo praticado na blogosfera ou lamentam o tempo em que os jornais eram vendidos em bancas e os jornalistas tinham o privilégio de definir o que era e o que não era notícia, bem como a ênfase a lhe dar.

Na internet todos somos leitores e jornalistas, mas alguns jornalistas querem que continuemos apenas leitores. Isto não é só infantil, é anacrônico. Assim como a historiografia desempenhou a partir da Renascença o mesmo papel que a mitologia na Antiguidade, a internet tem um papel mítico a desempenhar.

Identidades

Através da internet todas as habilidades podem ser exercitadas e, eventualmente, reconhecidas. Mesmo que não sejam desde logo reconhecidas, à medida que forem exercitadas as habilidades individuais para produzir textos (escritos, falados, iconográficos, fotográficos, televisivos e cinematográficos) e divulgá-los na internet ou usá-los com finalidade política ou lúdica colaborará para o desenvolvimento da sociedade. Na internet os acertos e os erros podem ser compartilhados, de maneira que tudo pode acabar virando estímulo ou reforço. Os artistas e os especialistas formados sob o signo da comunicação online tendem a ser mais ágeis e adaptáveis que seus colegas do passado.

Qualquer um que tenha o mínimo conhecimento de mitologia não pode desconsiderar o papel relevante que a internet já desempenha ou virá a desempenhar no desenvolvimento da humanidade. Por intermédio de um provedor gratuito e ao custo de uma ligação discada, o internauta está em condições de participar de movimentos virtuais globais ou transformá-los em realidades locais.

A criação de identidades e de convergência de propósitos através da internet é uma realidade. Isto transforma a rede de computadores num centro de re-ligação entre indivíduo e sua comunidade de eleição. A re-ligação é uma experiência mística e muitas vezes bastante agradável. Mesmo que seja terrificante, auxilia no processo de amadurecimento individual. Nesse sentido, pode-se dizer que a internet é mais do que um mercado, um fórum e uma biblioteca. Ela é mítica e mitologizante.

Incomodados

O filósofo Arthur Schopenhauer tinha uma verdadeira aversão por especialistas. Considerava-os mercadores, pois "sua ciência é um meio e não um fim" (A arte de escrever, L&PM, 2005). Com alguma razão considerava que os diletantes estavam em condições de produzir algo digno de nota, porque "só se dedicará a um assunto com toda seriedade alguém que esteja envolvido de modo imediato e que se ocupe dele com amor, com amore" (idem).

Durante séculos somente as pessoas ricas ou protegidas das muito ricas puderam se dedicar a um assunto por diletantismo. Com a internet, o diletantismo está ao acesso de todos. Nesse sentido, a rede é realmente revolucionária. Quanto mais cabeças pensarem e divulgarem idéias, maiores serão as probabilidades de que os verdadeiros gênios tenham sua genialidade aproveitada em benefício da humanidade.

Desde a antiguidade clássica milhões de pessoas criativas definharam amarguradas porque não puderam submeter suas idéias ao julgamento público. Agora que o público está ao alcance de todos, alguns privilegiados acostumados a ser tratados como únicos produtores culturais se mostram incomodados. A blogosfera será impiedosa com seus críticos, ignorando-os. Para compreender melhor este texto, retorne ao início. Assim, caso seja um especialista ou um leitor acostumado a dar crédito apenas aos especialistas, você poderá ignorar as afirmações de um inepto diletante. Caso contrário poderá considerar este texto uma modesta contribuição ao diletantismo virtual.

Artigo originalmente publicado no Observatório da Imprensa

http://www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos.asp?cod=370ENO001

Resumo: 

O Ricardo Kotsho está coberto de razão. Felizmente!

  • internet
  • Denunciar isto

Comentários

Enviar novo comentário

O conteúdo deste campo é privado não será exibido publicamente.
  • Endereços de páginas de internet e emails viram links automaticamente.
  • Tags HTML permitidas: <a> <em> <strong> <cite> <code> <ul> <ol> <li> <dl> <dt> <dd>
  • Linhas e parágrafos quebram automaticamente.

Mais informações sobre formatação HTML.

Canais

amazônia Battisti Brasil corrupção ditadura economia educação eleições eua extradição Flip futuro história jornalismo justiça Lula mundo política sociedade stf
+ canais

Últimos Debates

  • Democracia versus Judiciário
    Não sei se a Democracia seja a melhor forma de governo, provavelmente seja a menos pior. Também não sei se existe...
  • O Senado e o Senhor Feudal
    Nós, seres mesquinhos, acostumados aos nossos afazeres comezinhos, esquecemo-nos de perguntar de onde é que vêm as...
  • "PARA QUEM RECLAMAR???"
    “PARA QUEM RECLAMAR???” Caramba sou Brasileiro, tenho 56 anos, tenho três filhos e três netos, o que devo fazer??? São...