Evoluir é preciso!
Não sei até onde um escritor pode aceitar, sem resistências, alterações numa língua, já que se trata de um nível intelectual em que há afinidade com o que se diz língua erudita. Uma pessoa de elevada qualificação no trato da língua pode adquirir ciosidade de suas formações etimológicas e por seus aspectos de erudição. Isso é natural.
Entretanto, numa visão mais popular, penso que se devia até aprofundar as alterações, ainda que devam ser feitas por etapas. Não é aconselhável fazer grandes mudanças de uma só vez, porque se acabará tendo 2 línguas, tal como acontece, por exemplo, com o grego, uma língua popular e outra erudita. Se mudanças grandes são feitas de uma só vez, não serão assimiladas, e se terá uma língua e/ou escrita popular e outra elitizada.
O aspecto que julgo serem necessárias mais alterações é a questão de um mesmo som ser escrito com diferentes símbolos. Manter determinados sons fonéticos escritos de múltiplas formas, com base na etimologia já não faz mais sentido. Não mais temos, por exemplo, o tupi como língua que precise ser preservada dentro da atual língua portuguesa. Isso não irá implicar em que não mais se saberá qual a origem das palavras, pois sempre haverá o devido registro histórico. Ademais, no exemplo dado, é desnecessária uma regra de usar “ç” em palavras de origem indígena, se isso distingue uma mínima parte das palavras com essa origem.
Já tivemos, por exemplo (“ezemplo”) o nome Brasil escrito com "z", e foi alterado. No caso (“cazo”) dessa (“desa”) palavra concordo em se fazer uma exceção (“esesão”), afinal é o nome do nosso (“noso”) país, da nossa pátria. Só que são muitas as palavras que sofreram alterações (“alterasões”) ao longo do tempo, porém quase (“quaze”) sempre essas (“esas”) alterações foram no sentido inverso ao da lógica fonética. Isso (“Iso”) ocorreu num tempo em que os linguistas e acadêmicos, especialmente os escritores, eram ferrenhamente elitistas e eruditizantes. Contudo a desmedida existência (“ezistênsia”) de uma infinidade de modos de se escrever os sons de "s", "ss", "c", "ç", "ch", "x", “z”, é um disparate.
Isso deveria ser mudado, passo a passo, até que se tenha uma maior amplitude de coerência fonética. Vê-se, porém, como já exemplifiquei no parágrafo acima, nas formas colocadas entre parênteses, que tal avanço nas modificações exige cautela e cuidados, pois há um forte grau de transformação. Além do mais, proponho modificações apenas na escrita, e não na pronúncia, pois nesse último caso poderá ocorrer mais facilmente de ficar em uso os modos antigo e novo. Não é preciso pensar que deva ser atendido o pacote completo, a totalidade de modificações propostas, mas sim as alterações que forem mais viáveis e convenientes, e também mais indicadas após acurada análise.
Ainda nessa lógica, casos que mais parecem pilhéria, deveriam ser alterados para uma maior conformidade fonética. Um exemplo: lixo e fixo ("ficso"). Poderá, em muitos casos, ser vantajoso acertar a grafia a um modo lógico com a pronúncia, em lugar de se manter erros criados em circunstâncias do passado que hoje já não mais mantém justificativas. Sempre lembrando que as reformas devem ser feitas passo a passo, avançando uma depois da outra estar consolidada e assimilada. Na verdade, ainda se tem o problema de que isso implica custos, especialmente no âmbito editorial.
Enfim, sei que estou sendo "popular" em minha visão, mas sei que não faz sentido forçar uma erudição quando desnecessária. O que temos em nossa língua se aplica ao chavão: "Para que facilitar, se dá para dificultar?". Eis essa a grande vaidade do mestre em língua português, que lhe permite diferenciar-se do dissípulo, e acima de tudo sobrepor-se aquele a este. É a arrogância de impor-se à simplicidade! Devíamos ter um processo permanente e contínuo de reforma lingüística que atendesse paulatinamente aos projetos demandados.
De qualquer forma, apenas manifesto minha opinião, mas deixo mesmo a tarefa de cuidar da língua portuguesa aos que mais a tenham estudado. Só que os "imortais", especialmente os de outrora, não precisavam querer que dominar a língua portuguesa fosse privilégio de elite divinizada, que só pudesse ser alcançado com muito estudo e alta formação, uma sapiência de letrados. A língua pode ser a do "povo", desde que se mantenha o devido zelo para não deixar que modismos, variações dialetais, regionalismos, estrangeirismos, ou outras formas, até locais ou passageiras, façam o idioma degenerar.
No caso das reformas que se queira no idioma português, teremos sempre uma grande resistência de Portugal. A mãe da criatura mais a adora em vê-la diferente, e tende a não aceitar que outros mudem sua obra, sua criação. Esquecem os portugueses as modificações que eles próprios sempre fizeram na língua, bastando ver as diferenças da língua a cada 100 ou 200 anos que se recue no tempo.
Só que hoje, o idioma português já não é uma propriedade exclusiva de Portugal, e sim uma língua em que Portugal deve entrar em acordo com o Brasil para ser modificada, e nisso até já podemos começar a considerar também pelo menos Angola, Moçambique e Guiné-Bissau. O português tornou-se uma língua internacional! Terão os portugueses, os letrados e o povo de Portugal, a abertura de mentalidade necessária?
Basta-nos ver em que consistem as maiores dificuldades de nossas crianças, e de nosso povo em geral, para aprender a correta grafia das palavras. As maiores dificuldades ocorrem em geral nos casos de diferentes grafias para um mesmo som fonético. Isso é ainda mais evidente em pessoas de países em que o português não é oficial, e que aprenderam essa língua, sendo comum não superarem as incoerências gráficas que aqui questiono.
Um caso bastante saliente para estrangeiros que aprendem o português é a dificuldade em diferenciar os sons de “r” e “rr” (por exemplo raro, caro e carro), em que o ideal teria sido haver símbolos gráficos bem distintos para cada um dos dois sons. Talvez ainda seja o caso de estabelecer um símbolo gráfico próprio para o som de “r” (assim, teríamos, no exemplo dado, ra?o, ca?o, e carro passaria a ser escrito apenas com “r”).
Uma reforma que desse maior coerência gráfica, tornaria o português uma língua muito fácil de ser aprendida no meio em que seja coloquial, e também por estrangeiros que têm outros idiomas como língua coloquial. Repriso, entretanto, que não se pode fazer alterações na pronúncia de palavras, pois essas quase sempre são rejeitadas pela população que usa o idioma, tendo as reformas que se restringirem unicamente à grafia dos sons fonéticos.
Para estrangeiros que aprendam o idioma português há ainda uma grande dificuldade que é o idiomatismo dos sons anasalados (ã, ão, õe...), porém julgo que essa característica de nossa língua é intocável, e sou a favor de sua preservação. Nesse caso deveremos ser sempre tolerantes com os estrangeiros que pronunciam ao modo do idioma espanhol os nossos sons fonéticos nasais.
No rol de incoerências gráficas na língua portuguesa, inclui-se o “h” mudo e ornamental, em palavras como “hoje”. Talvez esse seja caso para um estudo de alteração. É lamentável que tantos desvios de grafia, daquela que seria coerente, venham desde um longo passado, e tenham-se cristalizado. Hoje as mudanças necessárias na ortografia caem diante de barreiras quase instransponíveis, como os custos, especialmente editoriais, e também até a assimilação popular das modificações.
Destaco que mudanças não precisam ser radicais, podendo ter as exceções que forem convenientes. Trata-se de, numa alteração ortográfica, poder-se manter características gráficas etimológicas, já em uso e consolidadas, em palavras originadas de um rol de idiomas, por exemplo os seis com maior contribuição à língua portuguesa, mais o latim e o grego. Isso poderia favorecer a internacionalização da língua portuguesa, e sua mais fácil assimilação por estrangeiros; e ajudaria a que brasileiros, portugueses e outros que se servem da língua portuguesa, tenham maior facilidade em assimilar idiomas estrangeiros. Haveria assim menor quantidade de palavras a sofrerem modificações. Nenhuma mudança ortográfica deve ser feita sem um profundo estudo das transformações e efeitos que causará.
Ao léu de uma síndrome de primeira leitura, alguém poderá achar que as proposições que escrevi são muito fortes. Ledo engano, pois me limito tão somente ao aspecto gráfico, e em nenhum caso à pronúncia (ao som fonético) da sílaba, da palavra, que seja afetada por alterações ortográficas. Radical foi a reforma que acabou de ser feita, pois mexe bastante em aspectos de pronúncia, uma vez que se tratam de modificações nas regras de acentuação. Exemplo disso é o caso do trema que servia para distinguir a pronúncia entre palavras como preguiça e lingüiça. Aliás, nesta última palavra o mais correto seria grafar linguíça, a fim de preservar a pronúncia. Contudo, gostei da reforma ortográfica que agora está entrando em vigor, e acho que foram obtusos os que a retardaram ou a ela se opuseram.
Além das reformas já implementadas, outras reformas deveriam já estar sendo preparadas. O idioma português tem muitas mudanças que seriam necessárias. Darei uma idéia, do que é minha visão, de mais alterações que se poderia fazer na língua portuguesa. Sei, entretanto, que isso é polêmico, gera controvérsias e contradições, é muito paradigmático. No texto do artigo dou detalhes disso que falo.

Comentários
#1 :)
Muito sábia esse que escreveu. Perfeito o texto.
#2 Para que o "ç"?
Penso que se deveria fazer um profundo estudo, com análise dos efeitos, decorrências e desdobramentos, para extinguir, ou reduzir a raras exceções, ou casos de palavras estrangeiras, o uso da letra “ç” na língua portuguesa. Essa alteração poderia ser planejada para o próximo pacote de alterações ortográficas que viesse a ser negociado entre os países lusófonos. O “ç” poderia, entretanto, continuar incluído no alfabeto, tal como as letras k, y e w. Note-se que o preciosismo em anunciar a origem etimológica da palavra não tem o valor pretendido pelos defensores da forma, pois tal não se estende às palavras que não fazem uso do “ç”, e que são a imensa maioria, sem que ocorra um problema maior resultante de não estar projetada na escrita a origem etimológica.
Saliento ainda que reformas da língua portuguesa que a aproximem do idioma espanhol devem ser tidas como desejáveis. Seria estupidez propugnar pelo contrário. No passado, entretanto, Portugal necessitou diferenciar, distinguir, individualizar-se da Espanha, como premência em erigir-se um Estado independente, separado, autônomo e soberano em relação ao povo e ao Estado espanhol. Hoje, essa questão está consolidada em favor de Portugal, e não mais depende de esforços em diferenciar-se linguisticamente. Também o mesmo ocorreu com o “falar” português, que buscou uma forma de pronunciar e entoar a fala de um modo que distanciasse dos povos hispânicos, especialmente os de Leão e Castela. Hoje, nem a independência nacional, nem a língua nacional de Portugal veem-se sob ameaça de absorção hispânica, ainda que esse não seja, totalmente, o caso de outros idiomas ibéricos como o galego, catalão e asturiano, e até o basco. Contudo, a situação de Portugal é bem diferenciada do que são as regiões autônomas hispânicas dentro do Estado da Espanha, ainda que se deve vislumbrar as perspectivas de projeção ibérica do idioma espanhol. O português, não devemos esquecer como consideração fundamental, é agora um idioma internacional também pertencente ao Brasil, Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, e outros Estados, e isso o afirma e garante diante do idioma espanhol.
Na Idade Média, Portugal esteve sob constante ameaça de ser absorvido pela Espanha, e isso ainda perdurou por grande parte da Idade Moderna, o que se refletiu em os portugueses terem também a sua língua nacional como elemento de afirmação pátria e de Estado totalmente separado. A própria situação geográfica por si só já compelia Portugal a um zelo por sua separação da Espanha. Ainda há o fato de que no período medieval a língua popular era muito suscetível de assimilações externas ou mesmo de ser trocada por outro idioma, mormente um que fosse próximo como o espanhol. Temos inclusive, por exemplo em relação ao idioma espanhol e não diferente do português, conforme a Wikipédia, que “A publicação da primeira gramática castelhana, escrita por Elio Antonio de Nebrija em 1492, ano do descobrimento da América, estabelece o marco inicial da segunda etapa de conformação e consolidação do idioma”. Dessa forma, sabe-se que durante toda a Idade Média o idioma português precisou “opor-se” ao espanhol, para lhe ser possível sobreviver.
Sobre o “ç” recomendo como leitura importante a matéria da URL a seguir: http://pt.wikipedia.org/wiki/Cedilha
#3 Escrita ideográfica!
Por mero exercício mental, faço a seguinte imaginação. Pode que no futuro a forma universal de comunicação seja a escrita chinesa, ideográfica. Assim, seria preciso uns 7 anos de estudos para ter um domínio da escrita ideográfica chinesa, porém a partir daí as pessoas de diferentes línguas, em todo o mundo, poderiam se comunicarem normalmente. Pouco importaria se para dizermos casa, os ingleses dizem house, pois um mesmo símbolo ideográfico representaria ambas as semânticas.
A alternativa atual é, por exemplo, a imensa maioria das pessoas, em todo o mundo, passarem a vida toda estudando inglês, sem nunca aprenderem a falar o inglês. Aliás, essa é, ao contrário do que parece, a língua mais difícil do mundo, pois a dislexia é uma doença típica da maioria das pessoas que falam inglês, além de o próprio idioma estar mórbido por essa perturbação.
Faça uma experiência: - coloque num televisor um filme em inglês, em que se tenha pessoas em linguagem coloquial; - fique ouvindo atrás da televisão, e você sentirá a dificuldade que é entender as palavras; - considere ainda sotaques, regionalismos, modismos, e características pessoais no falar, e se terá um caos ininteligível. Também o francês padece da mesma problemática, e para isso veja como um francês pronuncia “je te aime”, dizendo um “jitém” que além de tudo soa de um modo inimitável.
Faça a mesma experiência, com o televisor, com outras línguas, como aimará, alemão, árabe, bengali, birmanês, cazaque, coreano, esperanto, espanhol, finlandês, grego, hausa, hebraico, hindi-urdu, holandês-flamengo, húngaro, indonésio, italiano, japonês, javanês, latim, malgaxe, marata, persa, polonês, quíchua, romeno, russo, suaíle, sueco, tagalog, tailandês, tâmil, telegu, turco, ucraniano, vietnamita, yoruba, e ficará visível que são línguas com palavras mais nítidas e com mais regularidade na pronúncia. E tem mais, ouça músicas típicas brasileiras, como sambas, traduzidas para outras línguas, inclusive o italiano, e sinta, através da contrastação, como a língua portuguesa é linda, bela!
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