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Racismo é sempre racial!

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Enviado por Miguel DÁvila (não verificado(a)) em 4. fevereiro 2009 - 12:01
Resposta ao debate: 
Dia da Consciência Negra: o que falta para superar o preconceito?

O racismo não deve ser confundido como uma simples discriminação econômica, mas sim como o produtor de um processo consolidado através do tempo de exclusão e inferiorização social e econômica. Realmente o aspecto econômico interage com a discriminação étnica tanto numa mão como noutra, e até na contramão. Então, tendemos a pensar assim, julgando que o preconceito limita-se à diferenciação econômica.

Os grupos discriminados pelo racismo são pela inteira dinâmica social reduzidos e restringidos em suas possibilidades e oportunidades pessoais, sociais e econômicas. Tem-se nisso um processo histórico, que depois de consumado e consolidado no decorrer do tempo, nem mesmo o dobro de tempo poderá superar ou extirpar.

Instituem-se mecanismos e sistemas hereditários e decorrências, desdobramentos e conseqüências no presente, que vão se reproduzindo por prazo indeterminado e indefinível! Resulta tudo em circunstâncias em que até mesmo se tivermos uma ascensão de determinadas pessoas do grupo vítima de racismo, como no caso de negros e mulatos, a miscigenação, ou simplesmente a espoliação ou expropriação, funcionarão como fatores de “branqueamento” da “riqueza” ou da cor da pele.

Desnecessário fazer aqui uma digressão - regressão histórica, ou das situações, condições e circunstâncias do presente, sobre negros e mulatos, e também índios e caboclos, por todo o Brasil. Entretanto, olhando pelas propulsões econômicas facilmente nos confundimos. A engrenagem discriminatória pode até parecer funcionar ao contrário, como se a discriminação fosse solúvel diante da posição econômica individual ou mesmo de parte grupal dos discriminados.

Essa máscara econômica da discriminação racial é forte e contundente, e parece até mesmo mostrar faces inversas. Tivemos uma fragmentação desse prisma em relação aos mulatos africanos que formaram a massa dos invasores “árabes”, que se assenhorearam de Portugal na Idade Média. Tratavam-se de mouros das regiões do Mangrebe (Marrocos, Argélia e Tunísia) e da Mauritânia e Sahel lindeiro dessas áreas. Tornaram-se elite, e alvo de atração de miscigenação e amalgamação para a população autóctone portuguesa.

Entretanto, desde o início da Idade Moderna, o processo inverteu-se, e a pirâmide social e econômica em Portugal passou a refletir o predomínio racial do “mais branco”, do ariano. Ainda é assim hoje em Portugal. Uma visão holística do racismo não pode se desviar, ou de nada furtar-se, de como e do que se teve como resultados do colonialismo imposto a povos não europeus, e do escravagismo a que foram subjugados negros e mulatos, e até mesmo índios e caboclos.

Disso temos hoje a cara do Brasil, o retrato dos brasileiros, e nunca em nenhuma época os fatores e dinâmicas de discriminação foram tão impositivos de branqueamento como nos últimos cem anos. Atualmente persistem procedimentos de exclusão étnica, e até de limpeza étnica, com variadas facetas bem como manifestações variadas com maior ou menor saliências localizadas. Negar tudo isso tem sido a forma como racistas são descarados, disfarçam e tripudiam. Além de opressões ou violências, cinismo e hipocrisia são atributos e instrumentos da discriminação, seja racial ou com outras motivações.

CONSIDERAÇÕES ADICIONAIS:

Ainda nessa perspectiva de segmentação econômica, temos também a discriminação religiosa. Nesse modo de produção de segregações temos duas variações medonhas de preconceitos e discriminações. Uma é a discriminação fundada na diferença de credos, e outra é o amaldiçoado sistema de castas dentre a população subjugada à mesma religião.

Note-se que, por exemplo, no horrendo sistema brâmane de castas, houve, especialmente impulsionada pelo colonialismo europeu, uma configuração dirigida que cristalizou uma certa conotação face à cor da pele. As discriminações religiosas fundadas na diferença de credo manifestam aspectos econômicos tanto em disputa econômica entre os grupos, como também, e até mais comum, em opressão de um grupo sobre outro.

Ainda, devemos ver que num quadro – panorama mundial as religiões identificam-se, em linhas gerais, com as diferentes formações etnológicas. Trata-se do resultado de processos históricos, que tiveram regionalizações amplas, e também do próprio condicionamento geográfico, dentro do que temos as naturais distinções étnicas.

Vê-se, assim, que a discriminação fundada em princípios e dogmas religiosos tem, em geral, similaridade com a discriminação racial, em muitos aspectos. Temos também conjugação de motivações discriminatórias em que interagem racismos e distinções religiosas; e, ainda, ocorrem esses casos fronte diferenciações linguísticas entre populações. Há até casos, em que se produzem discriminações pela origem geográfica, até diante de afinidades étnicas.

No Brasil, entretanto, temos um racismo dirigido contra negros, mulatos, índios e caboclos, em que o fator mais forte é a cor da pele. Trata-se de uma herança adquirida do racismo europeu, nas formas que esse assumiu especialmente desde começos da Idade Moderna. O racismo europeu, perpetrou e consumou discriminações contra praticamente todos os povos não europeus, que implementou durante dominações colonialistas.

Em todas as regiões do Novo Mundo os europeus impuseram aos negros, e também aos índios, a escravidão, além de outras barbáries mais. Seria faccioso pretender negar ou desviar-se de considerar, tanto o que foi no passado, como no que reflete no presente, o escravagismo. Esse quadro histórico é bem conhecido, e não se pode mascarar.

O racismo contra negros e mulatos alicerçou-se, e espelhou-se, principalmente na cor da pele, chegando ao ponto de, especialmente ao tempo da Idade Moderna, não serem tidos como humanos pelos europeus escravagistas. Entretanto, sempre houve a ambigüidade que servisse aos interesses. Tanto foi assim, que não faltaram subterfúgios para equacionar interesses sexuais, procriativos, e até concubinatais ou esponsais.

Enfim, tem-se uma questão complexa e ampla, que neste texto em momento algum reduzo a apenas questão de cor de pele, mas sim afirmo resultar, no Brasil, a discriminação racial sobre a cor da pele. Também não descarto a consideração da influência do fator econômico, tanto que vê-se uma enorme diferenciação discriminatória em relação a índios e amarelos asiáticos.

Friso que a discriminação racial, étnica, e outras formas como a religiosa ou geográfica em geral produzem uma opressão social e econômica sobre uma das partes, e outras vezes uma disputa entre essas. No Brasil temos, sobre negros e mulatos, e também sobre índios e caboclos, opressão social e econômica.

Também têm-se preconceito contra o mais pobre, isso uma forma de discriminação com base no status social - econômico, que pode independer da cor da pele, raça, religião, língua, ou origem geográfica. Há até outros fatores de geração de discriminação que podem ser identificados até como independentes dos fatores étnicos e religiosos, mas com efeitos econômicos menos abrangentes na amplitude populacional.

Entretanto, a discriminação contra negros e mulatos no Brasil tem proporções que não podem ser comparadas a outras formas e motivações discriminatórias, e menos ainda se aventar qualquer equivalência entre estas dos efeitos e resultados que o racismo contra negros e mulatos causa.

Resumo: 

O racismo não deve ser confundido como uma simples discriminação econômica, mas sim como o produtor de um processo consolidado através do tempo de exclusão e inferiorização social e econômica. Realmente o aspecto econômico interage com a discriminação étnica tanto numa mão como noutra, e até na contramão. Então, tendemos a pensar assim, julgando que o preconceito limita-se à diferenciação econômica.

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Comentários

#1 Prezado Marcos A Rondineli

Enviado por Miguel DÁvila (não verificado(a)) em 5. fevereiro 2009 - 0:10.

...é contraditório, paradigmático, que diante da verdade que você destaca, vejamos as discriminações étnicas e religiosas produzirem-se numa complexidade e amplitude medonhas dentro da qual se auto-alimentam. É preciso que a visão que você coloca seja a arma com que se lute para mudar as realidades inaceitáveis que as discriminações provocam, segmentando brasileiros.

Neste comentário a seu artigo "Racismo ou colorismo?" atenho-me unicamente ao constante na "chamada do post". Já em relação ao texto do "post completo", julgo que você sobrepõe um tanto a sua interpretação ao que realmente falei. É natural isso na linha de transmissão e decodificação, quando expomos nossas idéias. Contudo, por vezes esse fenômeno numa comunicação interpessoal não é real, mas produção de subjeção. Deixo para os leitores a depuração dos textos de seu artigo e do meu.

Também não me atenho neste comentário à integralidade de todos os conceitos e princípios divulgados no texto do "post completo" de seu artigo. Vejo, acima de algumas diferenças de raciocínio, controvérsias e divergências, que não temos oposições neste assunto, mas sim variações de visão de certos aspectos e fatos. Isso porque a mim parece que ambos tenhamos uma intenção e um posicionamento de oposição à discriminação racial - étnica, religiosa, de condição econômica, ou por outras vilezas ou psicopatias que a origine. Aos leitores peço que leiam a íntegra tanto do seu artigo como do meu.

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