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Racismo Religioso

Enviado por geraldo.pignaton (não verificado(a)) em 17. outubro 2006 - 21:00
Resposta ao debate: 
O 11 de setembro mudou o mundo?

              Racismo Religioso<?xml:namespace prefix = o ns = "urn:schemas-microsoft-com:office:office" />
 
 
 A adoção da escravidão negra e a chegada dos jesuítas ao Brasil, não por acaso, são contemporâneas. A Companhia de Jesus adotou a escravidão negra como alternativa à dos índios, cuja escravização inviabilizava a catequese, ao contrário dos negros. Amparados em bula papal (que permitia escravizar negros pagãos, em troca da salvação de suas almas, pelo batismo e cristianização) os jesuítas protagonizaram cenas surrealistas de batismos grupais, à revelia dos batizados que, por economia burocrático-religiosa, recebiam (por lotes) o mesmo nome: o do santo do dia ou, por retaliação (picuinha religiosa), o de santos fundadores de ordens religiosas rivais (Benedito, Francisco ou Domingos) que com eles disputavam poder <?xml:namespace prefix = st1 ns = "urn:schemas-microsoft-com:office:smarttags" />em Roma. Uma vez batizados, o problema seguinte era fazer o escravo deixar a crença negra (considerada inferior) e adotar a crença senhorial, branca, cristã (exaltada com superior). Para isso os jesuítas se valeram do sincretismo religioso e da catequese músico-teatral (autos e congo), de forma similar à catequese indígena.
Vivera, na Itália, um pobre ser humano, filho de pai mouro (africano) com uma jovem italiana, que por ser mulato e provável filho de mãe solteira, cresceu estigmatizado, humilhado e desprezado. Sem maiores perspectivas na vida, o máximo que conseguiu foi entrar para um convento beneditino, de cujo patriarca (então ridicularizado) recebeu o nome. Pela sua condição, nunca passou de um mísero e insignificante irmão leigo, serviçal, subserviente, encarregado das tarefas consideradas aviltantes e inferiores pela bonomia monastérico-esclesiástica da época. Criado na discriminação, desde a infância, este monge acostumou-se a ver e aceitar tudo com normalidade; sentia-se bem assim; era feliz; tratava com bondade e socorria, com solidariedade, pessoas atingidas por infortúnios menores. Acabou por ser considerado santo (São Benedito). Foi neste modelo de inferioridade subserviente, premiado enfim com o Céu, que os jesuítas buscaram o instrumento de dominação e catequese negra: Benedito, o protótipo do escravo ideal. Bastou maquiá-lo de Preto Velho de Angola.
Séculos depois, quando expulsos, a crença negro-africana (assim como a indígena) estava totalmente erradicada das áreas de influência jesuítica. São Benedito gozava de alto conceito e elevado status religioso; era padroeiro e modelo de salvação para os escravos, com direito (até) de carregar no colo o filho de Senhor do Céu, o Menino Jesus. Foi quando vieram para o Brasil, ocupar seu vácuo religioso, monges rivais, os beneditinos (da mesma ordem religiosa que, lá na Itália, tanto desprezara e humilhara nosso Benedito). Logo descobriram que, aqui, o nome Benedito chegara primeiro e já tinha outros donos: os escravos.
Constrangidos e inconformados em ver o nome de "Benedictus" de Núrcia (480-547 DC), "santo reformador" de sua ordem, identificado com escravos, confundido e rebaixado como um "santo de senzala", na boca da "gentalha" segregada; constatando, a contragosto, a irreversibilidade do processo cultural arraigado; os beneditinos decidiram reciclar, para São "Bento", o nome de seu patriarca. Como nada se sabia, por estas bandas, da história da Ordem deles (Ordo Sancti Benedicti-OSB); e demais, discriminar fosse regra; o episódio passou despercebido, virou curiosidade histórica, detalhe pitoresco.
O problema ressurgiu, agora, com a eleição do atual Papa, que adotou o título honorífico, em latim, de Benedictus XVI (Benedectus XVI, em italiano). Aqui no Brasil, porém, a CNBB, baluarte na luta contra a exclusão leiga, traduziu-o para Bento XVI, denominação adotada pela mídia e até mesmo, oficialmente, pelo Governo Brasileiro. Benedictus, etimologicamente, é um substantivo (nome próprio) originário do latim vulgar, formado pela contração do advérbio Bene (bem) com o particípio passado Dictus (=dito, falado). Bentus, também é particípio passado, porém do verbo Benzer (=benzido, abençoado, bento). Confundir "bem dito - bem falado" com "benzido, abençoado, bento", pode parecer algo de somenos importância, questão semântica. Mas à luz da História representa a reafirmação, ratificação, resgate e assunção de um procedimento discriminatório (que hoje se constitui um ato delituoso), a expressão do mais puro racismo religioso: Afinal, assim como São Bento, Papa não pode ter nome de Preto; ainda mais em se tratando de um papa alemão, ariano, retrógrado; que foi da juventude hitleriana; ex-artilheiro da temível Flak (bateria anti-aerea nazista); ex-chefe do Santo Ofício (antiga Inquisição); que perseguiu, cassou e calou Leonardo Boff; que desfraldou na religião a bandeira nazista da anti-homossexualidade; e que exumou as cruzadas anti-islâmicas.
Por ironia este polêmico e desastrado Papa, ignorando os antecedentes históricos (é obvio), escolheu logo o nome de um "santo preto" para titulo honorífico. Bento XVI, na mais erudita tradução dos Jesuítas do Século XVI, é de fato e direito Benedito XVI, para constrangimento da CNBB. Quem duvidar; consulte a Enciclopédia Britânica. Além da "peça" do destino, do tiro pela culatra, fica ainda uma dúvida: será Deus escrevendo por linhas tortas ou, como reza a lenda, um castigo de São Benedito aos orgulhosos?

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