Psicologia Jesuítica
Psicologia Jesuítica
Não há quem nunca escutou falar que manga com leite, leite com jaca, abacaxi com cachaça ou com leite, cachaça com jaca ou manga, e tantas outras misturas de frutas com bebidas, façam mal à saúde e "provoquem congestão". Quem não ouviu dizer que onça prefere a carne de preto ou que sempre ataca o último da fila?
Estes conceitos, até hoje repetidos com a maior fé pelos mais velhos, na verdade são típicos de regiões onde houve colonização jesuítica. Consagram a maneira sutil e perspicaz como "trabalhavam" a mente de seus escravos para evitar furtos domésticos.
Afetos ao trabalho braçal, com grandes esforços físicos e dispêndio de energia, os escravos carregavam a injusta pecha de serem gulosos, de comerem em demasia. Para piorar, era crença corrente que escravo bem alimentado ficava lerdo e preguiçoso. Até no mercado negreiro, "preto do mocotó fino" valia mais que o de "mocotó grosso", por "comer pouco e ser melhor de serviço".
Mal alimentados e privados de direitos, os escravos só tinham duas saídas. Uma, era complementar suas necessidades furtando alimentos que manipulavam (leite, aguardente etc.); a outra, comer frutas nativas ou crescidas próximo aos locais de trabalho (abacaxi, jaca, manga etc.). Fome? Era normal que carregassem; mas como impedí-los de praticar tais furtos de necessidade? - No geral a receita era o castigo exemplar no "Tronco" ou pelourinho. Mas aos jesuítas, padres e pregadores do cristianismo, a flagelação escrava, atada ao madeiro, identificava os flageladores bem mais com soldados romanos, que com Jesus. O recurso foi inovar tecnologicamente e fazer o próprio negro se vigiar e se abster destes produtos furtados: usar de psicologia.
Vindos de regiões de savanas, com árvores esparsas, intensa exposição solar, solo seco, pouca água e sais minerais, nossos negros não se adaptaram bem ao novo ambiente ecológico, à beira-mar. A abundância de água e sal acarretava hipertensão arterial e conseqüentes acidentes vasculares cerebrais (chamados popularmente de congestão) freqüentemente seguidos de vômitos, onde restos de alimentos fibrosos (como jaca, abacaxi e manga) e odor de álcool ou leite azedo eram facilmente identificáveis. Daí, à associação entre fruta, bebida e congestão, foi um pulo; pedagogicamente explorado pelos jesuítas.
Da mesma forma a figura da onça, com manifesta preferência por carne de preto e comendo o último da fila, espantava os carregadores negros, adiantava viagens e tornava inimagináveis as fugas.
Não bastassem esses artifícios psicológicos, um medíocre irmão leigo italiano (discriminado por sua origem amestiçada de mouro) e um obscuro soldado romano (punido a flechadas e morto depois a pauladas) foram recauchutados e administrados a negros e índios como instrumentos de dominação e catequese. O meio-mouro, São Benedito, travestido de Preto Velho, preconizava a resignação negra à escravidão, em troca da sonhada alforria e de um lugar melhor lá no Céu, depois da morte. Via São Sebastião, buscavam intimidar índios refratários com a associação culposa entre rebeldia, flechamento romano e desaparecimento do homônimo infante Dom Sebastião (em terras d'África). Deu tão certo que erradicaram completamente a fé negra e indígena de suas áreas de influência. Isso tudo, mais de trezentos anos antes de Freud etc.

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